É costume, e bem, dizer-se de Nicholas Ray que foi o primeiro a trazer para o cinema a angústia da adolescência. They Live by Night e Rebel Without a Cause duram até hoje por muitas outras razões mas também por esse marco histórico bastante intencional. À minha geração, os de setenta, (e vá a alguns de vós de oitenta), ninguém soube falar tão bem (ou falar, sequer) como John Hughes. Nos dias que correm, Wes Anderson, Gus Van Sant, Noah Baumbach e outros mais novos, têm servido bem as pessoas dos sub-20, mas nos anos 80, enquanto eu crescia, o John Hughes era precioso.
Em 2006 torci o nariz ao Cê de Caetano Veloso. Houve valor, até lata saudável, num homem de 65 anos a meter o pé na porta do indie, mas não fosse o meu respeito e o disco podia ter resvalado para um momento embaraçoso. Preferi não o ouvir muito.
Mas agora, no que pode ser chamado um segundo disco, vem Abraçaço. Se não me engano, tudo parece estar resolvido.
Eu sei, eu sei, expressões como essa língua esquisita revelam mais da minha estupidez do que da complexidade da língua, mas demorei tanto tempo a saber se esta frase era ou não uma piada que para não estragar o momento decidi não ler nem mais uma linha do artigo:
But there is another problem with the arguments made by Mo Yan’s defenders, and that is what the Chinese call xifangzhongxinzhuyi. This phrase does not translate easily (...). Em Why We Should Criticize Mo Yan
Ouvi pela primeira vez este Elephant de Tame Impala no carro e pensei estar a ouvir Pink Floyd dos tempos de The Piper at the Gates of Dawn (pensei mesmo, não é força de expressão), embora reconheça a minha confusão quando ouvi o John Lennon a cantar.
Sei bem que 2012 está entregue a Frank Ocean, e claro que não acho que este Lonerism dos Tame Impala seja melhor, mas acontece que há um clique quando ouço determinada meia dúzia de bandas pela primeira vez - que inclui, por exemplo, os Battles ou os Animal Collective - que me faz sentir menos velho. É díficil explicar isto, mas é assim.
Uma das regras que o cinema de autor quebrou com gosto foi o do final feliz. Certo, não eram todos sempre assim, mas os filmes precisam de ser vendidos e os produtores não gostam de tragédias às quais se arranque toda a esperança (Hitchcock poderá ter sido o realizador que mais bem soube até onde podia levar as pessoas). Mesmo em Alien foi necessário um ajuste ao guião original salvando pelo menos um dos tripulantes. Finais felizes como em It's a Wonderful Life ou The Apartment parecem ser cláusulas de um contrato (embora só há muito pouco tenha sido informado por fontes insuspeitas que o final de The Apartment tem problemas). Foi com gosto que o público abriu os braços ao final pouco feliz ou triste ou trágico e, mais importante, lhe atribuiu credibilidade. Ninguém acredita na probabilidade de alguma coisa correr bem se puder correr mal, assim vai o mundo.
E é posto tudo isto que tanto intrigam os finais das histórias de Rohmer. Não é apenas um final feliz. É o mais feliz e perfeito possível, improvável de euromilhões, tão bem resolvido que julga-se estar a assistir à chegada à loucura da personagem. Mas é mesmo assim que Rohmer o quer, sem compromissos nem conformismos (os Seis Contos Morais são outro assunto, mas também lá está um tipo de final feliz, pelo menos do ponto de vista do moralista). Porque os fez assim talvez não interesse, mas pergunto-me se terá sido para voltar a um tempo do cinema em que ninguém levava a mal um destes finais, ou se quis tirar de si (e do público) o peso do protagonismo do fecho da história, criando-o tão perfeito que o tornou irrelevante e transportar-nos assim para o que realmente estava interessado em filmar: conversas de pessoas.
Não pesquisem, mas não é sem vergonha que se constata que sempre que Dickens foi aqui mencionado só serviu de muleta a posts sobre o Wire. Já que (nota-se) estou a trabalhar hoje, tomem então um bocadinho de 1901 e uma boa noite para todos.
À cautela, e para já, não tenho mais aspirações para 2013 do que as estreias em Janeiro de Lincoln e de Django Unchained.
Como para qualquer cidadão que ame a civilização, Lincoln é a minha pessoa preferida e a minha obsessão mais querida. Mesmo que fosse Michael Bay a tratar do assunto, lá estaria eu na semana de estreia, mas medos há.
Enfim, não é que tenha assim tanto em mim contra Spielberg - não foi por ele que veio mal ao cinema, pelo contrário - mas é inacreditável que alguém que goste tão sinceramente do público, o tenha em tão pouca conta que nunca consiga evitar acrescentar sempre mais um vestido vermelho, um anel que faltou derreter, um discurso demasiado inspirado, uma pequena tragédia de desencontro, um jeitinho, um empurrão numa realidade que nunca lhe é suficiente (claro que o escândalo que foi Amistad é o maior alimento de todos estes medos).
Não ajudou ter lido, a tapar os olhos de vergonha, que o filme abre com dois soldados, um branco e um preto, a citar de cor o discurso de Gettysburg, nem que Lincoln ouve (espero por tudo o que é sagrado que não tenha sido no leito da morte) os sinos que anunciam a aprovação da lei da emancipação. O pior pode perfeitamente estar para vir.
Mas apesar de termos pintado tão negro o cenário, estamos todos muito confiantes aqui no blog. É que há Daniel Day-Lewis. Num ano em que Anthony Hopkins, coitado, vai usar o seu habitual método de se afastar o mais possível do personagem que interpreta, na biopic de Hitchcock e demasiado perto da imitação mimética /concurso de televisão de Thatcher que a Meryl Streep fez há um par de anos (ninguém está a falar mal da Meryl Streep, tenham lá calma), teremos agora o fenómeno de sair do cinema com a certeza de que o próprio Abraham Lincoln, em 1860, nunca compreendeu bem a essência de Abraham Lincoln, problema que estará finalmente resolvido.
Billy Wilder acordou com a produção um cachet de dez mil dólares pelo guião de Ball of Fire. Mario Puzo terá vendido ao estúdio o seu guião d'O Padrinho por dez mil dólares. Conta-se ainda que Tarantino, no início de carreira, teve que vender e abdicar dos direitos de um dos seus dois guiões já escritos. Um era Reservoir Dogs, o outro, True Romance. Vendeu este por dez mil dólares. Aparentemente, seja nos anos 40, 60 ou 90 há um valor-padrão fixo para primeiros guiões de escritores.
É sensato não exagerar nas saudades de outros tempos de escrita para cinema, mas ninguém pode evitar um comentário retrógrado depois de dez minutos de Ball of Fire, filme de 1941 escrito por Billy Wilder, um emigrante em Hollywood.
- Professor Gurkakoff, your window shade again.
- Yes, Miss Bragg.
- It's a crime to carelessly expose this good carpet.
- You've just committed a more serious crime, Miss Bragg.
You have split an infinitive.
Never "to carelessly expose." Always "to expose carelessly."
- I'm not here to juggle words.
It's my job to conscientiously see that this house...
Numa daquelas situações que nunca poderei provar, disse em voz alta, embora tarde demais, que o It Won't Be Long de Beatles antecipou de tal forma os Franz Ferdinand que só lhes restava a humildade de fazer rapidamente uma cover da canção. Fui esmagado na minha insignificância quando descobri que a cover já existia e de nada me valeu a epifania.
Ontem, felizmente, enquanto preparava umas fajitas de frango para jantar, escolhi para playlist um shuffle de White Stripes, Cure, Beatles, e Mutantes (eu sei, eu sei, sou muito bom nisto). Como convém que os aros de cebola caramelizem violentamente antes de meter as tiras de frango na chapa, e como já tinha tratado do tomate em cubos, com cebola picada e coentros num charquinho de lima e azeite, pude parar para reflectir um pouco, precisamente no momento em que o caos binário do meu leitor de mp3 escolhia o muito bonito Offend in Every Way desse imaculado White Blood Cells. É evidente que mais tarde havia de adormecer e acordar com um loop de Offend in Every Way dentro da cabeça, que se manteve em grande parte do dia.
Não sei como chegámos deste ponto ao momento em que o loop passou para o I'm So Tired, mas é perfeitamente natural que tudo tenha sucedido assim. Aqui está a única canção de Beatles que quero ver nas garras de Jack White, se possível rapidamente. Pessoas com dúvidas devem dirigir-se directamente para os 0:38, o momento em que John Lennon, sempre um visionário, decide que quer ser o Jack White. Como todos nós.
Uma parte muito significativa deste fim-de-semana foi passado de volta dos podcasts de Desert Island Discs da BBC, programa de rádio com 70 anos. Comecei com algumas estatísticas rápidas. Foram entrevistadas 2893 pessoas, cada uma com direito a oito canções que levaria para uma ilha deserta. Vejamos.
Apenas duas pessoas escolheram Ramones e só uma delas não é o Morrissey. Os Blur foram escolhidos uma única vez e por um ex-director da BBC, por certo para evitar chatices. Há quatro cidadãos que levavam os Oasis para uma ilha (para uma ilha parece-me exagerado, mas uma destas pessoas, só uma - um jogador de rugby - escolheu o Champagne Supernova, o que não me ofende) e os Pulp ganham esta pequena liguilha com cinco escolhas.
Não há cá merdas quanto a indies no geral - nem um voto - sobretudo indie yankee como Strokes, National, Beirut ou Vampire Weekend. Nem indie yankee do norte como Arcade Fire ou Feist. Se tivermos mesmo que escolher lixo desse, então que seja o nosso lixo: oito para Radiohead, um para Goldfrapp, um para PJ Harvey, um para Franz Ferdinand. Bem vistas as coisas, pensará o britânico médio, o que é que esta miudagem quer inventar? Já cá temos The Who (41), Bowie (32), os Stones (54), que raio: inventámos os Beatles (253), o que querem mais?
Não sei se por peer pressure, se por apurado sentido prático (as músicas têm mais do que três minutos, de facto) Bach, Beethoven, Mendel, Mozart e essa malta têm as escolhas mais numerosas. Admite-se algum jazz, desde que devidamente aprovado por Philip Larkin ou Kingsley Amis. Se tiver mesmo mesmo que ser, que não passe de Duke Ellington, Count Basie ou, no limite dos limites, o início de carreira de Miles Davis. Nem pensar em Ornette Coleman (que ainda assim teve três) ou Chick Corea (um). Mesmo Bill Evans ou John Coltrane foram escolhidos por seis e oito pessoas, perigosos dissidentes, decerto. Já que falo nisto, a única pessoa que escolheu White Stripes (e logo por pontaria escolheu I Just Don't Know What to Do with Myself) foi uma ex-directora do MI5.
Dir-se-ia que não se pode ir mais longe, mas 127 pessoas resolveram que nem os grandes compositores românticos estariam livres de poluir o bom ambiente da ilha. 127 pessoas escolhem Shakespeare e não se fala mais nisso.