Gostava muito de saber escolher entre filmes de viagens no tempo que abusam de paradoxos diversos (Back to the Future ou Terminator) ou os que fogem deles como da peste (Primer ou Los Cronocrímenes). De Primer, filme de 2004, pressinto que irei gostar muito quando o compreender, mas ainda só o vi duas vezes (garantem-me que à quarta). O realizador Shane Carruth, um licenciado em matemática, quis fazer o mais correcto filme de viagens no tempo de sempre e decidiu não simplificar uma linha de texto que fosse. Quanto a esta última premissa posso garantir que é tudo verdade. Los Cronocrímenes, um filme espanhol de 2007, é bastante mais simples, igualmente baratinho (têm-se feito boas ficções científicas com pouco dinheiro e sem a armadilha de gadgets que arriscam anacronismos diversos em poucos anos), mas que, não fazendo cá cedências aos paradoxos que habitualmente são necessários a um enredo que pretenda bilheteira, conseguiu inventar uma história com um loop sem início, ou ou melhor, sem um catalisador do que virá (está) a acontecer, ou talvez ainda melhor, sem ser possível identificá-lo (escreveu-se muito que o filme não fazia sentido: um disparate). Peço desculpa por estas linhas, mas garanto que é dos melhores filmes de viagens no tempo que se fez e com uma viagem de apenas uma hora (há ainda um nu frontal que não estraga o filme). Destes filmes, espero apenas que nunca se deixem de fazer, e lá estarei para ver tudo, mesmo que o espectro seja tão largo que possa ir de Donnie Darko a The Butterfly Effect, inclusivamente (ou sobretudo), um filme que descobri em fóruns um bocadinho obscuros, chamado Frequently Asked Questions About Time Travel, que tem a seguinte sinopse: "While drinking at their local pub, three social outcasts attempt to navigate a time-travel conundrum." Acho que nunca uma sinopse me convenceu tão rapidamente a ver fosse o que fosse.
Num filme de personagens há tempo para caracterizá-los lentamente (o propósito por vezes nem é mais do que esse), e disso trataram muito bem Bergman, Woody Allen, Van Sant ou Wes Anderson. Quando é necessário tirar esse problema do caminho rapidamente e passar à acção (as voltas que agora é preciso dar para evitar "narrativa") há quem o saiba fazer bem, mesmo que existam uns quantos truques de algibeira. James Cameron foi bastante espectacular com Aliens, em poucos minutos, a distinguir uma dúzia de marines indiferenciados. Quando Apone acende um charuto assim que acorda da incubadora, está feito o personagem e quando Gorman vomita, também. Cameron a mostrar-nos que viu os seus filmes de guerra noutros tempos.
Nos film noir onde também havia esta urgência, o meu truque preferido foi sempre o do pianista. Se o detective, advogado ou low-life no geral souberem tocar piano, o personagem ganha imediatamente sensibilidade, inteligência, e um passado (até o Axl Rose ficava mais distinto atrás de um piano). Tem-se provado que não basta ser músico (deve estar para ser feito um filme sobre um baixista, e se calhar ainda bem); o pianista dos filmes é o carisma incarnado e com pouca margem para cedências. Se está agora neste bar nojento é porque a vida assim o tramou, mas antes miserável do que vítima (como, provavelmente, o baixista). Ainda melhor: foi de certeza ele quem se tramou, no acto clássico de sabotagem da felicidade - I had it all, and blew it, etc.
Quando Truffaut quis experimentar o seu noir (e devia querer muito, porque fê-lo logo depois d'Os 400 Golpes) compôs a história à volta de um pianista, para minha felicidade. De tanto ver o Charles Aznavour em VHS gravados pelo meu pai, nunca lhe suspeitei tanta pinta como em Disparem Sobre o Pianista, mas ei-lo. Escuso de dizer que o youtube abaixo é praticamente no início do filme.
Onírico, estranho, erótico, ambivalente e cruel. Como sempre, houve dois franceses - Raymond Borde e Ètiene Chaumeton - que teorizaram até ao impossível o cinema americano, e que criaram a expressão film noir para um determinado género do pós-guerra, que isolaram nestes cinco adjectivos: onírico, estranho, erótico, ambivalente e cruel. De todos os que conheço, o mais exemplar, quase manual de instruções, e o que preenche com maior precisão cada um dos cinco pontos é Detour, um filmezinho - tem 68 minutos - de Edgar Ulmer (austríaco dos tempos da UFA, assistente de Murnau em Sunrise e, segundo o próprio garante, técnico genérico em M e Metropolis), que se diz ter custado 50 mil dólares e demorado pouco mais de uma semana a rodar.
Detour parece feito de erros técnicos, plot holes e situações tão pouco credíveis que custa entender ter chegado a ser exibido, mas é por pouco mais do que isto que parece nunca sairmos de uma sensação de estranho pesadelo. A femme fatale de Detour é pura acidez e imprevisibilidade demoníaca (ainda dei um salto da cadeira ali a certa altura). Em Network, Sidney Lumet disse que o trabalho mais difícil que teve foi convencer Faye Dunaway a resistir à tentação de humanizar a sua personagem (aparentemente é complicado para os actores). Para Ann Savage, a Vera de Detour e uma daquelas pessoas sem fotografia no IMDB, isto não parece ter constituído qualquer problema: Vera é a encarnação do Mal, sem hesitações. Al Roberts (Tom Neal, outro sem foto) é o arquétipo do anti-herói noir. Derrotado da vida e conformado, sem grandes convicções de finais felizes, calcula que tudo certamente irá correr mal. Sendo que 'tudo' é apenas uma viagem até à California, de boleia, e dois azares cirúrgicos (o filme tem 68 minutos, mas mais de metade destes são passados dentro de um carro sobre estrada projectada em tela).
O noir é um género fácil de gostar, e se há uma boa mão cheia de obras primas, também se fez muito lixo à sua conta, como se baixo orçamento e diálogos começados por suppose fossem em si uma receita de sucesso, mas posso garantir (eu e o Errol Morris, que diz de Detour ser o seu filme preferido de todos os tempos) que é impossível esquecer este milagre de austeridade e minimalismo e posso garantir que não é como os outros, mesmo que os compare aos melhores Wilder, Ray ou Aldrich.
Pensei durante muito tempo que a duração dos genéricos nas séries era reduzida gradualmente, à medida que as temporadas se sucediam, para não entediar de morte quem está a ver. O Matt Groening explicou-me que, tendo cerca de 24 minutos para cada episódio dos Simpsons, acertava a duração do genérico se fosse necessário esticar um pouco o resto. Alguns não têm mais do que a situação do sofá, outros continuam tão longos como no primeiro episódio. Ao reconhecer isto fazia-o com alguma vergonha, porque significava que não tinham conseguido encher (digamos assim) os episódios dos genéricos longos. Muito contente com esta informação, resolvi que ia ser este um dos meus critérios da, senão qualidade, pelo menos confiança dos escritores no seu trabalho. Seinfeld, Curb Your Enthusiasm, Arrested Development estavam à frente nos exemplos bons e o brilhante mas inacreditavelmente longo genérico do cada vez mais chato Dexter deram-me razão por cinco minutos, até me lembrar que Sopranos, Wire, Treme, feitos com uma colagem de imagens usadas nos episódios à anos 80 gastavam três minutos que - abençoado tempo que vivemos - são invariavelmente transformados num mínimo que depende da destreza do espectador com o fast forward (parar no created by funciona bem em quase todas as séries). Foi portanto a reflexão mais inútil de toda a minha vida, mas estarei sempre do lado do genérico curto. Apetecia-me exagerar que poderia mesmo salvar uma série, mas o Lost (segundo melhor genérico de todos os tempos) também me cortou as vazas.
Parecendo que não, o parágrafo acima é uma introdução para comunicar que vi o Girls quase todo num fim-de-semana e já ganhou o prémio de melhor genérico de sempre. E tem outros méritos, vi-me obrigado a reconhecer.
É verdade que chegámos a comparar Mad Men a Hitchcock, e num certo sentido, já se fez piores comparações (ou pelo menos, não é mais arriscada que a habitual The Wire/Dickens). Aquilo a que se chamava ausência de narrativa em Mad Men era, tal como em Hitchcock (não me estou a rir, a sério), uma ausência dos mecanismos do mistério, mas não do suspense. Isto é, soubemos sempre tudo o que iria acontecer porque conhecemos de cor os anos 60 da América. Sabemos aquilo do Vietnam, de Kennedy e de Marylin Monroe. Sabemos que virão os Stones, Dylan e os Beatles. O próprio segredo de Don Draper é revelado ao espectador muito cedo. Exemplo de como tudo estava a ser bem conduzido é o episódio da crise dos mísseis de 1962, no qual é irrelevante saber que vai correr tudo bem. A angústia e o medo não sofrem nem um beliscão.
Ao terceiro episódio da sexta temporada é outra série de televisão. Não é que alguma vez Mad Men não tenha sido um desfile algo gratuito de vestidos, penteados e referências culturais mais ou menos obscuras, mas onde antes havia omnisciência, há agora muito chata previsibilidade e, pior ainda, má repetição, até à náusea, do que já funcionou.
A ideia central de Mad Men não era boa nem má, e por isso exigia excelente execução: um melodrama sobre a desadequação das pessoas ao seu tempo. Este desfecho, para onde a série caminha há demasiadas temporadas, começa a ser tão óbvio, fácil e arrastado, que cada novo indício (garrafas escondidas no escritório, o fim do glamour do adultério, pessoas que sugerem que se deixe de fumar) se torna quase ofensivo para quem está a ver.
Bem sei, não devia voltar sempre ao mesmo, mas em apenas doze episódios, David Simon contou esta história da desadequação de um homem ao seu tempo - na temporada dos estivadores de Wire - mas escolheu a tragédia, que, na verdade, era a única forma de o fazer. Seguindo o caminho do melodrama, só com muita destreza os criadores de Mad Men escapariam à telenovela (e escaparam, e escaparam, durante duas temporadas quase perfeitas e uma muito boa), o que não teria nada de mal se Mad Men não tivesse deixado há pelo menos dois anos de ser divertido.
Não há muitas histórias simpáticas sobre Louis B. Mayer, fundador da MGM. Há mais sobre a imposição de contratos aos actores ou do entusiasmo com que recebeu o Código Hays do que boas recordações. Nem sequer foi com boas intenções que fez força para que nascesse a Academia. Serviu primeiro para meter no lugar os sindicatos de técnicos que então davam as primeiras chatices e criar um espírito corporativo entre actores, realizadores, produtores e argumentistas. Poucos anos depois, também estes (excepto os produtores, evidentemente) viriam a criar os seus sindicatos, pelo que esse propósito inicial de união morreu logo ali. Mas, dada a derrapagem moral a que os filmes pareciam estar a ceder, a entrega de prémios anuais para os melhores do ano haveria de trazer um propósito de integridade às produções dos estúdios. Esta intenção em 1927 não tem nada de estranho, mas que tenha chegado aos dias de hoje quase intocada sim. Talvez não seja assim tão notável. Afinal, o propósito da Academia foi, antes de outro qualquer, servir e proteger a indústria, e claro que ainda é assim (seja com Michelle Obama a explicar-nos o sonho do cinema, seja com mais uma tentativa trapalhona de trazer de volta o tempo de ouro dos musicais).
Se o melhor truque do diabo foi convencer-nos que não existe, o melhor truque da Academia foi convencer-nos que está em causa o melhor filme do ano, o que deve explicar porque tenho sempre tantos colegas na manhã seguinte a latejar a revolta por mais uma escolha extremamente injusta, ano após ano. Só não foi sempre assim se quisermos acreditar numa das boas lendas de Holywood e de Mayer: na primeira edição dos Oscares, ao saber da decisão do júri, que pretendia atribuir a Melhor Produção Artística a The Crowd de Kind Vidor (um bom filme, não obstante) e produzido pela sua MGM, não abandonou a sala até convencer os jurados a entregar o prémio a Sunrise, do rival William Fox. Não terá sido a última vez que um Oscar foi bem atribuído (acho eu), mas duvido que se tenha voltado a permitir cedências destas a critérios românticos disparatados, mesmo que vindos do chefe.
É costume, e bem, dizer-se de Nicholas Ray que foi o primeiro a trazer para o cinema a angústia da adolescência. They Live by Night e Rebel Without a Cause duram até hoje por muitas outras razões mas também por esse marco histórico bastante intencional. À minha geração, os de setenta, (e vá a alguns de vós de oitenta), ninguém soube falar tão bem (ou falar, sequer) como John Hughes. Nos dias que correm, Wes Anderson, Gus Van Sant, Noah Baumbach e outros mais novos, têm servido bem as pessoas dos sub-20, mas nos anos 80, enquanto eu crescia, o John Hughes era precioso.
Em 2006 torci o nariz ao Cê de Caetano Veloso. Houve valor, até lata saudável, num homem de 65 anos a meter o pé na porta do indie, mas não fosse o meu respeito e o disco podia ter resvalado para um momento embaraçoso. Preferi não o ouvir muito.
Mas agora, no que pode ser chamado um segundo disco, vem Abraçaço. Se não me engano, tudo parece estar resolvido.
Eu sei, eu sei, expressões como essa língua esquisita revelam mais da minha estupidez do que da complexidade da língua, mas demorei tanto tempo a saber se esta frase era ou não uma piada que para não estragar o momento decidi não ler nem mais uma linha do artigo:
But there is another problem with the arguments made by Mo Yan’s defenders, and that is what the Chinese call xifangzhongxinzhuyi. This phrase does not translate easily (...). Em Why We Should Criticize Mo Yan
Ouvi pela primeira vez este Elephant de Tame Impala no carro e pensei estar a ouvir Pink Floyd dos tempos de The Piper at the Gates of Dawn (pensei mesmo, não é força de expressão), embora reconheça a minha confusão quando ouvi o John Lennon a cantar.
Sei bem que 2012 está entregue a Frank Ocean, e claro que não acho que este Lonerism dos Tame Impala seja melhor, mas acontece que há um clique quando ouço determinada meia dúzia de bandas pela primeira vez - que inclui, por exemplo, os Battles ou os Animal Collective - que me faz sentir menos velho. É díficil explicar isto, mas é assim.
Uma das regras que o cinema de autor quebrou com gosto foi o do final feliz. Certo, não eram todos sempre assim, mas os filmes precisam de ser vendidos e os produtores não gostam de tragédias às quais se arranque toda a esperança (Hitchcock poderá ter sido o realizador que mais bem soube até onde podia levar as pessoas). Mesmo em Alien foi necessário um ajuste ao guião original salvando pelo menos um dos tripulantes. Finais felizes como em It's a Wonderful Life ou The Apartment parecem ser cláusulas de um contrato (embora só há muito pouco tenha sido informado por fontes insuspeitas que o final de The Apartment tem problemas). Foi com gosto que o público abriu os braços ao final pouco feliz ou triste ou trágico e, mais importante, lhe atribuiu credibilidade. Ninguém acredita na probabilidade de alguma coisa correr bem se puder correr mal, assim vai o mundo.
E é posto tudo isto que tanto intrigam os finais das histórias de Rohmer. Não é apenas um final feliz. É o mais feliz e perfeito possível, improvável de euromilhões, tão bem resolvido que julga-se estar a assistir à chegada à loucura da personagem. Mas é mesmo assim que Rohmer o quer, sem compromissos nem conformismos (os Seis Contos Morais são outro assunto, mas também lá está um tipo de final feliz, pelo menos do ponto de vista do moralista). Porque os fez assim talvez não interesse, mas pergunto-me se terá sido para voltar a um tempo do cinema em que ninguém levava a mal um destes finais, ou se quis tirar de si (e do público) o peso do protagonismo do fecho da história, criando-o tão perfeito que o tornou irrelevante e transportar-nos assim para o que realmente estava interessado em filmar: conversas de pessoas.
Não pesquisem, mas não é sem vergonha que se constata que sempre que Dickens foi aqui mencionado só serviu de muleta a posts sobre o Wire. Já que (nota-se) estou a trabalhar hoje, tomem então um bocadinho de 1901 e uma boa noite para todos.